sábado, 27 de dezembro de 2014

JUDAS



TÍtulo: Judas
Autor: Amós Oz. / Tradutor: Paulo Geiser.
 Editora: Companhia Das Letras.
 Ilustração: Utilizaram uma peça do escultor romeno Constantin Brâncusi: The Kiss - 1907.  Gostei muito dessa capa!


               A citação de Alberto Manguel: “Uma obra-prima, absoluta e necessária”. Quanto à discussão do tema sim! Mas não creio que Judas seja um dos melhores livros de Amós Oz. Embora, a desconstrução do discípulo Judas na visão dos cristãos e Jesus na visão de Judas e dos Judeus seja muito interessante, não é a primeira vez que esse assunto (Judas não foi traidor) vem sendo tratado. O livro é extenso demais para o assunto/conteúdo em si. No momento, não sei definir qual recurso utilizado pelo escritor nessa construção, mas a repetição (irritante) das características físicas das personagens e do ambiente em quase todos os capítulos o tornou pedante e me fez crer que poderiam tê-lo reduzido. (364 páginas, incluído glossário).

          No livro paira a desesperança e a solidão num clima claustrofóbico. Uma das personagens, Guershom Wald, diz: “A vida é uma sombra que passa... A morte também é uma sombra que passa. Só a dor não passa. Continua e continua. Sempre.” (pág. 334).


                   A história se passa na Jerusalém moderna, entre 1959 e 1960. Shmuel Asch é um estudante que pretende escrever Jesus sob a ótica dos Judeus e encontra dificuldades tanto pessoais (com o término de seu relacionamento com Iardena, envolve-se com Atalia Abravanel, uma espécie de “viúva-negra” de Micha Wald, que descarta todos os amantes depois de usá-los) quanto no campo da pesquisa. Shmuel procurou por todo tempo uma resposta e na frase final do livro a encontra. (Ufa!)
Quanto à figura de Judas, traidor, odiado e amaldiçoado, Amós, provocativo, abre a possibilidade de contraversão daquilo que se criou ao longo da História. “Traidores” no livro Judas (Shaltiel, Shamuel e discípulo Judas) são todos aqueles que foram transgressores do seu tempo, todos aqueles que enxergaram e foram além e injustiçados por isso. Bem como o próprio Amós Oz, por defender a divisão do país em dois Estados, um judeu e o outro árabe, como única alternativa para a paz, deixa claro o desastre provocado pela falta de compreensão e pelo ódio sem motivo.

PS: O amor e o ódio são como pontas de um laço, que percorrem por toda a história. Shamuel é a personagem que carrega à fita de amor sem motivo e o ódio sem motivo é outra parte da fita que é carregada culturalmente. Imagine que ambas fazem singelas ondulações até percorrerem uma ampla curva e em algum momento se encontram num nó sufocante.Para as personagens não há outra esperança senão que com o tempo o laço se afrouxe e consigam respirar melhor.

Roberto Terra

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