sábado, 20 de abril de 2013

Cinquenta Tons de Cinza - Trilogia - E. L. James






50 Grãos do Terra                                      

Há quem diga que a trilogia de E. L. James (Erika Leonard James) é o livro “modinha da vez” e que afundará muito mais rápido do que o Titanic.  Eu sugiro que coloquem os seus coletes! 

Liderou o ranking dos mais vendidos, mas isso não é o suficiente para que seja considerado bom, pelo contrário, há uma discussão sobre seu caráter literário que o deixa longe de ser um cânone. Eu o li, foram 1.536 páginas que poderiam ter sido resumidas em apenas um único volume, estaria ótimo!

Alguns homens ridicularizam Cinquenta Tons, talvez por que desconheçam que as mulheres tenham direito ao prazer? Sexo é tabu? Por que uma protagonista tão politicamente correta? Por que o “príncipe” tem que ser rico? Talvez essa tenha sido a grande sacada de E. L. James, conhecer o público que quer atingir. Feliz ou infelizmente, as estatísticas comprovam que muitas mulheres se identificam com a obra. Comentam com todas as amigas e os colocam debaixo dos braços como se fossem um manual e se sentissem transgressoras, mas de quê? Pra quem?
O sexo é um tema gerador de audiência porque desperta nas pessoas a curiosidade do novo, de algo que poderia ser feito e que nenhum “voyeur” ousaria perder. Eis que me lancei ao mar...

No primeiro livro, Cinquenta Tons de Cinza, E. L. James lança mão do sadomasoquismo atraindo a ingênua e virgem Steele para a casa do “lobo” Grey e forra o “quarto da dor” em vermelho para combinar com a sua capa de chapeuzinho. Ok! Não é um spoiler que se preze, mas queiram vocês navegarem por diversas páginas enfadonhas de trocas de e-mails, de briguinhas banais, sexo e mais sexo sem se sentirem enjoados.

No segundo livro, Cinquenta Tons mais Escuros, na metade do livro eu fiquei mais animado e esperançoso com a aventura proporcionada pelo “bang bang” que rolou entre as personagens e no final, o mocinho consegue salvar a mocinha. Ufa! Até que enfim, levantaram da cama!

No terceiro, Cinquenta Tons de Liberdade, o “bad romance" vai por água abaixo (Eu disse para usarem o colete) e o “lobo” se transforma num “gatinho cansado de guerra” que se torna papai e assim, o livro termina com a queridíssima Steele sentada, grávida pela segunda vez, sobre o gramado da magnífica mansão assistindo pai e filho brincarem numa cena comum e bem típica de um "happy end". Parece que os sonhos são sempre os mesmos porque nos tornamos desbotados demais. Ainda bem que existe o ponto final nos livros! Senão, seria inevitável o bocejar até mesmo das personagens.

Christian Grey é o rei dos “playboys” e o ápice do consumismo onipotente que desfila cheio de grifes, carros de luxo e helicóptero.  Ele é um semideus machista. É branco e atlético. O mito do falo viril criado pela cultura do prazer, um espectro da nossa sociedade do estupro. É um nada, porque é uma fantasia construída dentro dos padrões de estereótipos sociais.  A personagem é o desbotado das cores que há no velho “quadro” de uma vida fútil, regada a prazeres superficiais, mas desejados por muitos e vivida em diversos tons de exploração. Peguei pesado? Ok! Ele tem um passado triste e um final “redentor”.
Anastasia Steele, uma jovem recém-formada, “inteligentíssima”, magra, branca, responsável, virgem, sonha em ser independente, busca o príncipe encantado, tem baixa autoestima, possui o estereótipo da mulher feita para casar e é superlegal. Viram? Uma fórmula identificatória perfeita, não?! Embora, pareça feliz, Steele não se torna realizada profissionalmente, sua “independência” no começo do livro é apenas aparente porque ao se relacionar com Grey, ela retoma o padrão engessado conhecido por todos nós. Ela é apenas um objeto de utilização pornográfica que acha que escolheu, mas foi escolhida!
A mulher liberada não é tão liberada assim, pois não consegue aproveitar o sexo pelo sexo. Se agora ela apresenta uma destreza sexual antes reservada apenas às profissionais do sexo, ela ainda sonha com o príncipe encantado, que ela será capaz de seduzir, encantar e sim, esse sonho ainda continua na cabeça das mulheres liberadas levar ao altar. (BORGES; TIBURI, 2014, p. 186).
Cinquenta Tons de Cinza é polêmico? Demais! Há vários temas que deveriam ser discutidos como o sadomasoquismo; a mulher no mercado de trabalho; a mulher como protagonista de si e dona de seu corpo; o papel que a personagem Anastasia desempenhou na vida de Grey, ou seja, a mulher que levanta o moral do homem para que ele brilhe magnífico; os mitos do sexo; a necessidade da mulher em ser mãe para se sentir realizada; o homem provedor e as diferenças entre literatura e não-literatura.

          Enfim, terra firme!!

ROBERTO TERRA

Publicado em parceria num blog Aqui


Referência: 
BORGES, Maria de Lourdes; TIBURI, Márcia. (Organização) Filosofia: machismos e feminismos. Florianópolis: Ed. UFSC. 2014.


     

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Reticências de um Saudoso Reticente...



Às vezes, escreve-se tristeza para soar alegria, exorcizar ou agradecer, eu não sei.
Estávamos numa estação, por dois anos, andávamos por todas as direções, nos afastávamos e nos reuníamos em pequenos esbarrões, porque eram pequenos, porém, soavam fortes ao coração. Um dia, avistamos o trem, era o começo e o fim de tudo. Era barulhento, mas produziu entre nós o silêncio no espírito, a mudez das palavras e foi assim que você subiu no trem, calado e sem se despedir. Eu fiquei, inevitavelmente... Tarde demais é o tempo, o tempo, sempre o tempo... A nos enganar que passa por nós como seta, ferindo quem estiver pela frente. Ele passou e, durante todos estes anos, eu o sinto em mim como um eterno calor de um toque, como as ondas provocadas por pedras atiradas num lado, como as reverberações do som daquela gota que se forma em meio a íris e caí, salta dos olhos e desaparece no chão deixando apenas o ecoar, ecoar do choque. Hoje, eu sonhei com você e acordei saudade, olhei ao redor e ainda estou aqui, na estação.
O vento soprou o rascunho de minhas mãos. A moça, que também esperava, o recolheu e disse: — Que linda frase! Fiquei tomado por aquelas palavras. Sim, em sintaxe, as orações são frases, porém, o contrário não se dá, porque há frases nominais e a única condição para que exista uma oração é um verbo. Ela estava certa!
 Pensei, portanto, numa maneira de enxugar o texto. Um modo de não parecer tão prolixo com o tempo, com as lembranças... Senti um fio de esperança. Procurei o verbo que as orações solicitavam e descobri o verbo AMAR. Frases nominais? O nome não digo, não confesso, não revelo, sepultei em meu coração. Não fiquei satisfeito e resolvi transformar tudo na palavra SAUDADE, mas saudade é muito dolorida, não me cabe no peito, sangra a carne, gela os ossos...
Chorei. Foram três gotas finais que bastaram para transformar a palavra em sinal gráfico: RETICÊNCIAS (...) É assim que o amor ficará tatuado em meu coração.


Roberto Terra