terça-feira, 9 de agosto de 2011

- A ILHA SOB O MAR -


Isabel Allende realizou uma grande obra.
O livro é interessante do começo ao fim. Os personagens são bem construídos e tendo sempre como o foco Zarité (principal). Lançado na Flip2010.
Gostei da maneira como tratou a escravidão.

"Dance, dance, Zarité... Porque escravo que dança é livre, enquanto dança". Zarité sempre dançou!

A história começa por volta 1770 antes da revolução haitiana.
A escravidão deixou uma grande chaga que a "liberdade" apenas cobriu com uma película.
Isabel em entrevista na FLIP afirmou que a fé foi muito importante e decisiva para que ocorresse a revolução haitiana que teve início em 1791 na cerimônia de Bois Cayman, que Zarité descreve na página 166. A prática do Vodu era proibida e então tiveram que sincretizar os Iwa, loas (espíritos) aos santos da igreja católica para que fosse "aceita" escondendo assim a tal "religião pagã".

Na pág. 291 podemos ver no diálogo com Zarité o exemplo desse sincretismo:
" - Ninguém sabe o futuro, só Deus. Às vezes, o que mais tememos acaba sendo uma bênção. As portas dessa igreja estão sempre abertas, pode vir quando quiser. Talvez Deus me permita ajudar você, quando chegar o momento.
- O deus dos brancos me dá medo, Père Antoine. É mais cruel que Prosper Cambray.
- Quem?
- O chefe dos capatazes da plantação em Saint-Domingue. Não sou serva de Jesus, mon père. Sou serva dos loas que acompanharam minha mãe desde a Guiné. Pertenço a Erzuli.
- Sim, filha, conheço sua Erzuli, sorrindo o sacerdote. - Meu Deus é o mesmo Papa Bondye seu, mas com outro nome. Seus loas são como meus santos. No coração humano há espaço para todas as divindades.
- O Vodu era proibido em Saint-Domingue, mon père.
- Aqui você pode continuar com o seu Vodu, minha filha, porque ninguém se importa, desde que não haja escândalo".


Ainda ocorre em nossos dias essa sicretização. Muitos ainda torcem o nariz para o Candomblé e a Umbanda que são mais comuns em nosso país.
Inclusive muitos católicos recorrem aos serviços do Candomblé em alguns dias na semana mas, não comentam. Dizem não pertencer àquela religião.

Acho interessante tocar no ponto primordial de Zarité que é o altruísmo. Essa abnegação encontrou seu ápice no último encontro que teve com Gambo, sua grande paixão, que possuía um desejo tão cego pela liberdade que soou um tanto narcísico. Houve esse choque na relação de Zarité e Gambo (altruísmo x narcisismo). Ao mesmo tempo, podemos perceber que a partir do momento que Teté consegue sua liberdade (30 de novembro de 1800) começa lentamente a tomar as rédeas de sua vida e inicia uma relação madura com Zacharie.

O poder é bem empregado quando concedido a uma pessoa justa.
Os déspotas não possuem senso de justiça porque não se consideram semelhantes aos "comuns", aos objetos (no caso dos escravos), à ralé.
Valmorain em conversa com Dr. Parmentier pergunta a Zarité:
" -Espere, Teté. Vamos ver se nos ajuda a dirimir uma dúvida. O Dr. Parmentier acha que os negros são tão humanos quanto os brancos, e eu afirmo o contrário. O que você acha? - Perguntou-lhe Valmorain, num tom que ao doutor pareceu mais paternal do que sarcástico.
- O senhor sempre tem razão - murmurou ela, por fim.
- Ou seja, na sua opinião, os negros não são completamente humanos...
- Um ser que não é humano não tem opiniões, senhor"
. (pág.96)
A justiça é uma das quatro virtudes cardinais, segundo a igreja católica: É uma constante e firme vontade de dar aos outros o que lhes é devido. Isso é dificílimo!
"Cegaram a justiça" e mesmo assim, vemos a balança pender ora para a direita ora esquerda, em alguns casos.
Fiquemos com a célebre frase de John Emerich Edward Dalberg-Acton:
"O poder corrompe. O poder absoluto corrompe absolutamente"
Zarité seja realmente a personagem mais inteligente do romance. Eu vejo Zarité e Teté como um modo de Isabel Allende introduzir na trama um olhar mais acima. Uma bifurcação (se fosse possível) tanto que Zarité é mais inteligente que Teté embora sejam as mesmas.
O tiro de Hortense saiu pela culatra. Não fosse “a natureza” impedi-la (nasceram somente meninas de suas gestações recorrentes) ela teria um filho que faria tudo conforme quisesse através de sua “sutil” influência. Interessante que Hortense tivesse todas as características de uma pessoa mal-amada e invejosa mesmo "desencalhando" se casando com um marido “jovem” e com boa condição financeira. As chicotadas que recebeu de Maurice foram poucas, merecia mais! (ri muito nesta parte)
Há 40 ou 50 anos atrás? Ainda se podia ver (era muito comum) o time de "hortenses" desfilando pelos cafezais das grandes fazendas. Mandavam colocar água no leite que era oferecido aos empregados, por exemplo. E houve aquelas que tiveram muito êxito em suas tramas, ao menos, até a "hora da morte", onde todo perdão é pouco.

Zarité:"Caminhando e caminhando pelo mundo, irá se consolar aos poucos, e um dia, quando já não puder dar mais um passo de cansaço, entenderá que não pode fugir da dor; é preciso domesticá-la, para que não incomode. Então, sentirá Rosette ao seu lado, acompanhando-o, como a sinto eu, e talvez recupere seu filho e volte a se interessar pelo fim da escravidão". (pág.474)

No final, parece-me que essa luta de Maurice soa inglória (não estou dizendo que não tenha sido importante) porque ele "abandonou" o filho com Zarité. Mesmo que estivesse fugindo da dor, não adianta "arrumar" o mundo e deixar a casa bagunçada. Os exemplos ensinam muito mais. O grande problema dos jovens é achar que tem todo o tempo do mundo. Sabe-se que morre, mas não agora, jovem. A imaturidade faz crescer tardio esse amor pela família. Sinto por Maurice ter desperdiçado tanto tempo ao invés de curtir mais sua maman e seu filho.
Acho interessante sua pergunta e há um texto de Maria Goretti Ribeiro, Doutora em Letras e Linguística, que trata desse arquétipo da Deusa, do feminino nas artes literárias e no cotidiano.
http://migre.me/4cGZK
As mulheres da 'Ilha Sob o Mar' são personagens fortes, trabalhadoras, conciliadoras, algumas com espírito empreendedor, protetoras, feiticeiras, sensuais... Por isso, achei o texto bastante ilustrativo.

Isabel Allende questiona o feminismo e afirma que a palavra está desprestigiada. As mulheres (ditas feministas) ainda são vistas como feias, pouco sensuais, briguentas... Qual é a "cara" do feminismo hoje? Ainda há sociedades que "abafam" as mulheres, cobrem seus corpos, "calam suas bocas", roubam seus sonhos... Isso, diz Isabel, ocorre com 80% das mulheres no mundo.

A Ilha Sob o Mar
O título nos impõe uma reflexão sobre o destino dos mortos que é bem diferente daquele o qual estamos acostumados a ouvir.
Maria Goretti explica em seu texto esse embate entre o matriarcado (Deusa / terra) e o patriarcado (Deus / céu) no qual vivemos hoje.

Maurice nasceu muito fraco, prematuro e suscetível a doenças devido às drogas ingeridas por Eugenia. Quando Zarité narra que o colocou "enrolado" em sua cintura assim como as africanas. Eu me lembrei do Método Mãe Canguru (MMC) que embora seja pouco conhecido é extremamente eficaz no desenvolvimento do bebê.http://www.blogger.com/img/blank.gif
Vejam como funciona o método no artigo de Tereza Setsuko Toma http://migre.me/4dq3v

A "loucura" (não sei o tipo de transtorno de Eugênia) que pode soar como uma forma de escravidão. Na verdade, foi para Eugênia a forma pela qual foi liberta de tudo que possuia, de todas as amarras e laços. Eugênia foi cativa quando ainda não havia sido "apagada" na escuridão da loucura. Zarité "absorveu", agregou a "herança" (o marido, o filho...) deixada por Eugênia com toda a sua carga. Concordo que Zarité teve mais sorte, como ela mesmo diz, que as outras escravas da época... Mas, a perda de Rosette, retira Tété do rol das "princesas". Allende humaniza a personagem ainda mais no fim da história.
Sua frase: "Com certeza é uma visão feminista da autora denunciando o sistema escravocrata e machista daquela época".
Eu concordo, porém, não é somente daquela época que Isabel pretende denunciar. No sistema do patriarcado a mulher sempre foi cativa. Por exemplo, a sociedade não "vê com bons olhos" a mulher que rejeita a maternidade. Porque existe uma ideia de que toda mulher TEM que ser MÃE e CASADA.

A Ilha Sob o Mar; 476 páginas, Editora Bertrand Brasil.