quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Eu não queria que Gertrudes ficasse enterrada por muito tempo...



Num Piscar de Olhos


Nas manhãs de domingo, Gertrudes costumava se sentar numa grande poltrona na varanda de sua velha casa. O quintal era grande e haviam várias árvores frutíferas e um belo jardim que se estendia até a estrada. Trazia sempre consigo os seus livros e o seu diário, deixando-se ficar por horas absorta em seus pensamentos. Escrever era dar forma a imensidão para que esta não a consumisse por dentro.
“ e daqui onde me sento, meus olhos correm pelas paisagens que me cercam. Correm como se a última conquista fosse perscrutar a mais bela forma de vida dentro da linha que separa o que eu vejo do que me é invisível...”
Morava numa cidade no interior de Minas Gerais. Tinha um pouco mais de trinta anos de idade, mas ainda mantinha imaculado o frescor da juventude. Sua mãe, Dona Sebastiana, já estava ficando preocupada com a solteirice da filha. Havia feito promessas, simpatias e pedira por muitas vezes as suas comadres, com jeitinho, ajuda para desencalhar a filha. As pessoas da cidade comentavam sobre a pobre moça que nunca havia se casado. Gertrudes não se incomodava com as opiniões ao seu respeito. Era professora no jardim da infância. Adorava ensinar aos pequeninos, contavam-lhes histórias, cantigas de roda e, por vezes, saiam cirandando pela sala de aula. Nestes momentos, esquecia que era adulta e se transformava também numa criança cheia alegria.
“ Preciso unir os retalhos de alegria para tecer uma linda colcha de esperança que afagará a intempérie da solidão que me assola.”
Numa manhã de domingo, Gertrudes levou um grande susto ao ouvir Dona Sebastiana entrar aos berros pela casa. Ofegante pela corrida, mal conseguia falar o motivo de tanta aflição:
—“Tude” minha fia, ocê num sabe da notícia. Alfredim, filho do Tião Soledade vortou da cidade grandi!
“ ... e um dia, meus pés deixarão de percorrer por essa longa estrada da solidão que sinto na espera de ser amada.”
Gertrudes saltou da cadeira de supetão, colocou uma mão das mãos na boca e a outra no coração, tamanho foi o assombro da notícia.
— AAAlfredo?! Não pode ser mamãe! A Senhora ouviu direito?
— Orvi sim fia! Direitinho, direitinho! Mais de noite nois vai lá pra mode nois fazê uma virsita pro compadi Tião e o Alfredim.
— Mamãe, eu não sei se eu irei porque... porque eu tenho que preparar as aulas que eu darei amanhã!
Gertrudes estava tão nervosa que até hesitou em ir. Não sabia qual roupa vestir, qual perfume usar e o que dizer depois de tanto tempo.
— Ocê vai sim Tudi! Ocê não vai fazê disfeita pu cumpadi!
“ o amor não há de ser esquecido e sim guardado. Fica latente em algum canto da alma ou do coração e depois ressurge numa confusão repentina e ardor constante... Pobre de mim!”
Quando Afredo foi morar em São Paulo, com seus dezenove anos, Gertrudes tinha acabado de fazer dezessete. A última vez em que esteve juntos foi na festinha de formatura do segundo grau. Dançaram durante todo o baile e logo que terminou, Alfredo se ofereceu para levar Gertrudes em casa. Foi uma noite intensa de amor, no carro, que ela nunca esqueceu. Desde então nunca se interessou por nenhum outro homem. Ansiava por um novo reencontro. Às vezes, soluçava baixinho a tristeza de não tê-lo junto de si.
“ Alfredo é o homem de minha vida e pra sempre o será! Porque o amor pode ser reinventado mas nunca substituído. Espero o tempo que for necessário para que nos encontremos novamente!”
— Tude minha fia, vamu que já tamu atrasadas!
“Querido diário,
Hoje é o dia mais feliz de minha vida! O Alfredo voltou para a cidade e acho que dessa vez ele veio pra ficar. Estou explodindo de felicidade! Será que ele se lembrará de mim? Está na hora, tenho que ir...”
— Calma mãe, já estou indo!
— Vou andando na frente que logo ocê me arcança. Pára de ficá ai escrevendo bubiça!
Gertrudes saiu apressadamente para a casa de Sebastião. Ansiosa e sonhando acordada. Foi atravessar a rua e não se deu conta de que em sua direção vinha um carro. Morreu a caminho do Hospital.
A cidade inteira sofreu com a morte trágica de Gertrudes e em sua homenagem foi inaugurado um lindo jardim.
Alfredo se lembrava vagamente daquela transa após o baile.
“Caminhando pela primeira vez no jardim de minha casa, entre tantas cores e formas, percebi o inexorável silêncio que pairava em mim ou talvez nelas. Tive a impressão de que algo ali me espiava. Eu corri espantada. Depois, pensando sobre isso aqui na varanda de minha casa depois de tantos anos, cheguei a conclusão de que era, simplesmente, a vida que havia em mim e nas coisas que eu julgava serem inanimadas. Um dia morrerei e o amor e todas as coisas que há em mim hão de se transformar. E os meus versos se não forem lembrados, ao menos serão de esquecimento.”



Roberto Terra