sexta-feira, 3 de abril de 2015

Como ser uma parisiense em qualquer lugar do mundo



Paris é Logo Ali


Olá pessoal, participo de um grupo de leitores e, no começo deste ano, surgiu uma polêmica sobre o livro: Como ser uma parisiense em qualquer lugar do mundo. A pessoa responsável pela postagem ficou muito sem jeito diante de tantas críticas e disse que o doaria quando terminasse a leitura. Fiquei curioso para entender o motivo da “pendenga” e entrei em contato com ela o solicitando ;) Vamos nos sentar e enquanto tomamos um cafezinho, eu contarei como foi essa experiência. A capa é acetinada e o conteúdo diagramado em letras grande e com lindas fotografias ora das próprias autoras, ora de modelos e paisagens. Todas remetem a algum tipo de reflexão feita sobre o cotidiano das pessoas. Visivelmente, o livro é muito agradável e bonito. Vejam alguns comentários:


Por fim, de quem eu ganhei o livro: 


COMO SER uma parisiense? Seria difícil caso não tivéssemos nascido em Paris, isso é óbvio e soaria ridículo (perdoe-me pela palavra, mas ouvi muito por conta da discussão) e imaginei que as autoras só poderiam ter surtado para tamanha pretensão. Continuando a frase "em qualquer lugar do mundo" ora, poderíamos ser, portanto, parisienses aqui no Brasil onde os pássaros não gorjeiam como lá ou acolá? Nós nos tornaríamos caricaturas de parisienses? O que haveria de interessante em ser um parisiense?  
  
“Mergulhei na leitura” sem nenhum preconceito ou medo de ser feliz. O livro é escrito por quatro mulheres lindas e independentes. São cineastas, empresárias, modelo representante de grande marca e que possui ONG de ajuda as mulheres em todo o mundo, jornalistas, produtoras e escritoras que se reuniram para montar um grande puzzle com fragmentos de textos, imagens e nos divertir com a grande jogada do "como ser" que na verdade é uma fantasia. Todo o folclore que existe em torno de ser um parisiense é parecido com o que dizem a respeito da beleza das mulheres brasileiras ou o jeito de ser do carioca, o mineiro, o nordestino, os gaúchos e etc. O "como ser”, nesse sentido, mostra ao mesmo tempo que a possibilidade de ser ou se camuflar de, desperta aversão daqueles que possuem uma relação cultural estreita com Paris e que não se sentem representados na obra. Eis o motivo do rebuliço: preconceito. Óbvio, que o livro não daria conta do todo de uma cultura. 

É de fácil leitura, no máximo dois dias. A partir do momento em que o leitor percebe que se trata de uma fantasia, um desejo utópico, uma brincadeira de "ser" com as autoras, ou até mesmo uma provocação, a leitura flui numa boa. Seria um livro raso? Depende. Quanto de bagagem o leitor possui da vida? O que aprendeu, dividiu e somou com os avós? Quanto tempo perdeu com relacionamentos fugazes? Conhece o seu corpo? O que é ser mãe? São perguntas que despertam para a reflexão consigo e o diálogo com o outro. Por isso, não o acho tão raso nem ridículo.

Fotografei um trecho do livro e o postei no mesmo grupo. Perguntei o que achavam, se discordavam ou acrescentavam. Eis o trecho: 

(página 137)



A experiência foi muito positiva, muitas mulheres reforçaram que não se trata de um livro superficial ou ofensivo à inteligência, simplesmente, porque foi possível discutirmos o seu conteúdo. Vivenciamos os sabores e os dissabores do amor, e a cada passo uma nova experiência, aprendizado, um ciclo, um renascimento...A possibilidade de "ser" uma parisiense em qualquer lugar do mundo, é porque todos compartilhamos da mesma dor ou prazer de sermos humanos em qualquer lugar do mundo. É uma leitura para quem quer rir um pouco de si e relembrar o passado, mas sem rancor porque o livro não é para quem esteja de mal com a vida, muito menos autoajuda para quem não tem elegância, porque isso não se compra. A receita de sobremesa de maçã, do pó de café no ralo da pia, de retirar a maquiagem para dormir, desistir daquele homem complicado que não será seu, sorrir nas fases difíceis, amar e cuidar dos filhos sem esquecer de si mesmo, se reunir com os amigos, beber, comer, ler...

          Sim! Somos todos parisienses!

Foto: Francesca Mantovani


ROBERTO TERRA
Publicado em parceria num blog Aqui

sábado, 27 de dezembro de 2014

JUDAS



TÍtulo: Judas
Autor: Amós Oz. / Tradutor: Paulo Geiser.
 Editora: Companhia Das Letras.
 Ilustração: Utilizaram uma peça do escultor romeno Constantin Brâncusi: The Kiss - 1907.  Gostei muito dessa capa!


               A citação de Alberto Manguel: “Uma obra-prima, absoluta e necessária”. Quanto à discussão do tema sim! Mas não creio que Judas seja um dos melhores livros de Amós Oz. Embora, a desconstrução do discípulo Judas na visão dos cristãos e Jesus na visão de Judas e dos Judeus seja muito interessante, não é a primeira vez que esse assunto (Judas não foi traidor) vem sendo tratado. O livro é extenso demais para o assunto/conteúdo em si. No momento, não sei definir qual recurso utilizado pelo escritor nessa construção, mas a repetição (irritante) das características físicas das personagens e do ambiente em quase todos os capítulos o tornou pedante e me fez crer que poderiam tê-lo reduzido. (364 páginas, incluído glossário).

          No livro paira a desesperança e a solidão num clima claustrofóbico. Uma das personagens, Guershom Wald, diz: “A vida é uma sombra que passa... A morte também é uma sombra que passa. Só a dor não passa. Continua e continua. Sempre.” (pág. 334).


                   A história se passa na Jerusalém moderna, entre 1959 e 1960. Shmuel Asch é um estudante que pretende escrever Jesus sob a ótica dos Judeus e encontra dificuldades tanto pessoais (com o término de seu relacionamento com Iardena, envolve-se com Atalia Abravanel, uma espécie de “viúva-negra” de Micha Wald, que descarta todos os amantes depois de usá-los) quanto no campo da pesquisa. Shmuel procurou por todo tempo uma resposta e na frase final do livro a encontra. (Ufa!)
Quanto à figura de Judas, traidor, odiado e amaldiçoado, Amós, provocativo, abre a possibilidade de contraversão daquilo que se criou ao longo da História. “Traidores” no livro Judas (Shaltiel, Shamuel e discípulo Judas) são todos aqueles que foram transgressores do seu tempo, todos aqueles que enxergaram e foram além e injustiçados por isso. Bem como o próprio Amós Oz, por defender a divisão do país em dois Estados, um judeu e o outro árabe, como única alternativa para a paz, deixa claro o desastre provocado pela falta de compreensão e pelo ódio sem motivo.

PS: O amor e o ódio são como pontas de um laço, que percorrem por toda a história. Shamuel é a personagem que carrega à fita de amor sem motivo e o ódio sem motivo é outra parte da fita que é carregada culturalmente. Imagine que ambas fazem singelas ondulações até percorrerem uma ampla curva e em algum momento se encontram num nó sufocante.Para as personagens não há outra esperança senão que com o tempo o laço se afrouxe e consigam respirar melhor.

Roberto Terra

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

SEU AZUL

Desenho: Gustavo Piqueira


Seu Azul e Nuvens Minhas

Há aqueles que não compram livros pela capa. Eu comprei não tão somente pela capa quanto pelo título. Seu Azul, é uma brincadeira com a semântica que eu achei muito divertida. Nuvens Minhas, porque eu penso que dá pra se falar sobre muita coisa séria, num clima leve. Em outras palavras, mesmo que o pronome omita a responsabilidade que é nossa.

 O projeto gráfico é um dos mais bonitos que eu já vi. Esse é o quarto livro lançado pela editora Lote42. Seu Azul possui areia sobre a capa, o que lhe confere um design incrível, além de ser numerado (O meu é de número 766 / 1000 exemplares) que confere uma exclusividade aos apaixonados por livros.

Foto: Roberto Terra




Vejam o vídeo do pessoal trabalhando neles: 



Depois da “estranheza” causada pelo título e pela aspereza da capa, nos deparamos com anúncios nas primeiras páginas, ou seja, são fotografias de casais bonitos, saudáveis e felizes em diferentes circunstâncias do dia a dia que são usadas exaustivamente pela mídia. É uma provocação de Gustavo Piqueira com as amarras parcerias do mercado editorial. A impressão que eu tive é que esses anúncios também servem para chamar a atenção para mais incentivos quando se fala em produção de qualidade e liberdade de criação.

Seu Azul 

A areia colada na capa confere originalidade, beleza e um recado: “Sou um muro! ” É essa a sensação que tive quando iniciei a leitura. O livro trata da história de um casal moderno que na correria do dia a dia, não possui tempo para conversar. Essa ausência de diálogo acaba por deteriorar a relação, então, procuram ajuda de um terapeuta que recomenda que peguem notícias de portais / sites da internet para discutirem na hora do jantar com a finalidade de se produzir um diálogo. Aí é que entra a capa, o “muro”.  

O leitor é um voyeur que estica o pescoço sobre o muro para observar um casal que discute na mesa do jantar sobre temas corriqueiros e percebe no cantinho, um garotinho desenhando alguma coisa que ele não consegue identificar. Adentramos na intimidade de um casal comum, afogado na rotina diária e futilidades da vida.

No meio, a areia é uma grande metáfora para a delicadeza e a porosidade das relações. A medida que o leitor avança na leitura e adentra na intimidade do casal, ele sente o incomodo de a areia esfarelar sobre si. O cinismo do casal se torna muito evidente, porque ninguém quer se sentir responsável pelo fracasso e os diálogos cada vez mais embolados e difíceis. O menino não participa deles, apenas ouve a “conversa” dos pais e os representa através de garatujas onde ele é o protagonista.

No fim. O livro chama a atenção para a ausência de preparo para uma relação, a importância do diálogo e a falha dos métodos terapêuticos mirabolantes que se esquecem dos desvarios criados pela cultura. É um olhar sobre "o muro" da sociedade atual, e eu creio que as personagens sejam representantes fieis de casais comuns que se deparam com as dificuldades embutidas na frase ardilosa: “e viveram felizes para sempre”.

Nuvens Minhas

Foto: Roberto Terra
    
Seu Azul é um nickname inventado por Allyson nos games.  Aliás, as personagens são "avatares" que simulam e desempenham o papel de um típico casal brasileiro, enfrentando as dificuldades reais para encaixar a ternura onde a função fraterna falhou. A pergunta é muito simples: O modelo de família ficou ultrapassado? Pensando nas páginas iniciais do livro que são "destinadas aos anunciantes", o contexto lembra aquele velho american dreams só que escrachado e atualizado com novos "gadgets", porém, surrado de sempre. É provável que o amor não tenha suportado o peso de ser feliz para sempre.











O conteúdo foi publicado Aqui  e no site do autor Aqui  ;)


ROBERTO TERRA

domingo, 6 de julho de 2014

O Outro Lado Da Vagina



 Fotografia: Evelyn Ruman



O Outro Lado Da Vagina
by Roberto Terra
     
Recentemente, conheci o texto de Eliane Brum chamado VAGINA (link abaixo) calma, não se trata de nenhuma nota em relação ao funk, nem uma nova série do pornô brasileiro, nem um novo tipo de esculacho, tão comum, em nossa mídia. Trata-se de um texto corajoso que aborda uma questão pouco (nenhum pouco) discutida. Por quê? Porque todo questionamento que seja provocador encontra resistência diante de assuntos que são tabus, paradigmas e alvo de preconceitos, portanto, gera desinteresse. Sinceramente, não estamos abertos ao diálogo e discussão virou sinônimo de “tiro, porrada e bomba” (violência) e o que sobrará para a humanidade que desconhece a importância da construção, da formação de um pensamento?
O que é, está sendo ou foi, a revolução sexual ocidental da mulher? Por que a vagina é tão ameaçadora e desconhecida? Por que se conhece tão pouco da mulher que posa nua para as revistas masculinas? Qual é a vantagem em ser um símbolo sexual (objeto) numa sociedade patriarcal que despreza, vulgariza e desrespeita a vagina como um órgão e símbolo do feminino? São questões que estão longe de serem respondidas, porque simplesmente não interessa numa sociedade do estupro a mulher (o ser humano) que está sendo fotografada para ser devorada num banheiro, refeita em fotoshop para não ser criticada por “defeito de fabricação” e vendida à exaustão e substituída quando se tornar obsoleta, velha. Por que há o desejo tão grande (enorme) de ser visto, ser desejado a qualquer preço? As mulheres conhecem suas vaginas?
     As agressões contra a mulher não ganham destaque nos jornais, aliás, tudo aquilo que o feminismo engloba (as minorias) é desprezado. Quando critico a trilogia de E. L. James penso na obrigatoriedade performática que é imposta à mulher como garantia de aprovação e felicidade conjugal, sem nenhuma opção de mudança, óbvio, trata-se apenas de uma reprodução jovem das princesas infantis dos contos de fadas, que apenas cresceu, mas continua sendo um corpo explorado até a putrefação.
     A discussão sobre o feminismo possui poucos adeptos. Acredita-se que o feminismo é apenas uma guerra de sexos, hobby de lésbicas ou mulheres feias (fora do padrão de beleza) mal-amadas e virou vídeos de piadinhas infames no YouTube. É triste e trágico que o sexismo gritante em nossa sociedade mumifique a todos e não nos permita encontrar no outro a continuação de nós mesmos.

Conheça o trabalho da fotógrafa Evelyn Ruman: Sangro, logo existo.  em: http://www.evelynrumanfoto.com/#!landscape/cyuu

sábado, 20 de abril de 2013

Cinquenta Tons de Cinza - Trilogia - E. L. James






50 Grãos do Terra                                      

Há quem diga que a trilogia de E. L. James (Erika Leonard James) é o livro “modinha da vez” e que afundará muito mais rápido do que o Titanic.  Eu sugiro que coloquem os seus coletes! 

Liderou o ranking dos mais vendidos, mas isso não é o suficiente para que seja considerado bom, pelo contrário, há uma discussão sobre seu caráter literário que o deixa longe de ser um cânone. Eu o li, foram 1.536 páginas que poderiam ter sido resumidas em apenas um único volume, estaria ótimo!

Alguns homens ridicularizam Cinquenta Tons, talvez por que desconheçam que as mulheres tenham direito ao prazer? Sexo é tabu? Por que uma protagonista tão politicamente correta? Por que o “príncipe” tem que ser rico? Talvez essa tenha sido a grande sacada de E. L. James, conhecer o público que quer atingir. Feliz ou infelizmente, as estatísticas comprovam que muitas mulheres se identificam com a obra. Comentam com todas as amigas e os colocam debaixo dos braços como se fossem um manual e se sentissem transgressoras, mas de quê? Pra quem?
O sexo é um tema gerador de audiência porque desperta nas pessoas a curiosidade do novo, de algo que poderia ser feito e que nenhum “voyeur” ousaria perder. Eis que me lancei ao mar...

No primeiro livro, Cinquenta Tons de Cinza, E. L. James lança mão do sadomasoquismo atraindo a ingênua e virgem Steele para a casa do “lobo” Grey e forra o “quarto da dor” em vermelho para combinar com a sua capa de chapeuzinho. Ok! Não é um spoiler que se preze, mas queiram vocês navegarem por diversas páginas enfadonhas de trocas de e-mails, de briguinhas banais, sexo e mais sexo sem se sentirem enjoados.

No segundo livro, Cinquenta Tons mais Escuros, na metade do livro eu fiquei mais animado e esperançoso com a aventura proporcionada pelo “bang bang” que rolou entre as personagens e no final, o mocinho consegue salvar a mocinha. Ufa! Até que enfim, levantaram da cama!

No terceiro, Cinquenta Tons de Liberdade, o “bad romance" vai por água abaixo (Eu disse para usarem o colete) e o “lobo” se transforma num “gatinho cansado de guerra” que se torna papai e assim, o livro termina com a queridíssima Steele sentada, grávida pela segunda vez, sobre o gramado da magnífica mansão assistindo pai e filho brincarem numa cena comum e bem típica de um "happy end". Parece que os sonhos são sempre os mesmos porque nos tornamos desbotados demais. Ainda bem que existe o ponto final nos livros! Senão, seria inevitável o bocejar até mesmo das personagens.

Christian Grey é o rei dos “playboys” e o ápice do consumismo onipotente que desfila cheio de grifes, carros de luxo e helicóptero.  Ele é um semideus machista. É branco e atlético. O mito do falo viril criado pela cultura do prazer, um espectro da nossa sociedade do estupro. É um nada, porque é uma fantasia construída dentro dos padrões de estereótipos sociais.  A personagem é o desbotado das cores que há no velho “quadro” de uma vida fútil, regada a prazeres superficiais, mas desejados por muitos e vivida em diversos tons de exploração. Peguei pesado? Ok! Ele tem um passado triste e um final “redentor”.
Anastasia Steele, uma jovem recém-formada, “inteligentíssima”, magra, branca, responsável, virgem, sonha em ser independente, busca o príncipe encantado, tem baixa autoestima, possui o estereótipo da mulher feita para casar e é superlegal. Viram? Uma fórmula identificatória perfeita, não?! Embora, pareça feliz, Steele não se torna realizada profissionalmente, sua “independência” no começo do livro é apenas aparente porque ao se relacionar com Grey, ela retoma o padrão engessado conhecido por todos nós. Ela é apenas um objeto de utilização pornográfica que acha que escolheu, mas foi escolhida!
A mulher liberada não é tão liberada assim, pois não consegue aproveitar o sexo pelo sexo. Se agora ela apresenta uma destreza sexual antes reservada apenas às profissionais do sexo, ela ainda sonha com o príncipe encantado, que ela será capaz de seduzir, encantar e sim, esse sonho ainda continua na cabeça das mulheres liberadas levar ao altar. (BORGES; TIBURI, 2014, p. 186).
Cinquenta Tons de Cinza é polêmico? Demais! Há vários temas que deveriam ser discutidos como o sadomasoquismo; a mulher no mercado de trabalho; a mulher como protagonista de si e dona de seu corpo; o papel que a personagem Anastasia desempenhou na vida de Grey, ou seja, a mulher que levanta o moral do homem para que ele brilhe magnífico; os mitos do sexo; a necessidade da mulher em ser mãe para se sentir realizada; o homem provedor e as diferenças entre literatura e não-literatura.

          Enfim, terra firme!!

ROBERTO TERRA

Publicado em parceria num blog Aqui


Referência: 
BORGES, Maria de Lourdes; TIBURI, Márcia. (Organização) Filosofia: machismos e feminismos. Florianópolis: Ed. UFSC. 2014.


     

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Reticências de um Saudoso Reticente...



Às vezes, escreve-se tristeza para soar alegria, exorcizar ou agradecer, eu não sei.
Estávamos numa estação, por dois anos, andávamos por todas as direções, nos afastávamos e nos reuníamos em pequenos esbarrões, porque eram pequenos, porém, soavam fortes ao coração. Um dia, avistamos o trem, era o começo e o fim de tudo. Era barulhento, mas produziu entre nós o silêncio no espírito, a mudez das palavras e foi assim que você subiu no trem, calado e sem se despedir. Eu fiquei, inevitavelmente... Tarde demais é o tempo, o tempo, sempre o tempo... A nos enganar que passa por nós como seta, ferindo quem estiver pela frente. Ele passou e, durante todos estes anos, eu o sinto em mim como um eterno calor de um toque, como as ondas provocadas por pedras atiradas num lado, como as reverberações do som daquela gota que se forma em meio a íris e caí, salta dos olhos e desaparece no chão deixando apenas o ecoar, ecoar do choque. Hoje, eu sonhei com você e acordei saudade, olhei ao redor e ainda estou aqui, na estação.
O vento soprou o rascunho de minhas mãos. A moça, que também esperava, o recolheu e disse: — Que linda frase! Fiquei tomado por aquelas palavras. Sim, em sintaxe, as orações são frases, porém, o contrário não se dá, porque há frases nominais e a única condição para que exista uma oração é um verbo. Ela estava certa!
 Pensei, portanto, numa maneira de enxugar o texto. Um modo de não parecer tão prolixo com o tempo, com as lembranças... Senti um fio de esperança. Procurei o verbo que as orações solicitavam e descobri o verbo AMAR. Frases nominais? O nome não digo, não confesso, não revelo, sepultei em meu coração. Não fiquei satisfeito e resolvi transformar tudo na palavra SAUDADE, mas saudade é muito dolorida, não me cabe no peito, sangra a carne, gela os ossos...
Chorei. Foram três gotas finais que bastaram para transformar a palavra em sinal gráfico: RETICÊNCIAS (...) É assim que o amor ficará tatuado em meu coração.


Roberto Terra

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Leitura sempre!

No site www.sejaetico.com.br encontrei esta matéria muito interessante e mesmo que as ideias e soluções não sejam tão difíceis de se imaginar, escrever em blog exige, por vezes, respaldo profissional. Grifei pontos principais do texto, assim como marco em minhas revistas e creio que Dr. Luiz não se importará. (risos)

Eu já discuti bastante sobre os livros de Paulo Coelho, por exemplo, que são livros considerados ruins por uma grande maioria adulta. Acredito que é muito melhor que alunos que não tenham hábito da leitura, nem interesse, venham para o “mundo da leitura” por meio de livros de auto-ajuda, da saga Crepúsculo ou ainda Herry Potter,do que não despertarem para o gosto da leitura.
A leitura expande nossa maneira de ver o mundo e de nos inserirmos nele. Aumenta nossa capacidade de interação com os outros. Pra não ser extremista, a leitura salva.
Há nas redes sociais, comunidades onde se faz discussão de livros mensais e há desafios de leitura que promovem o debate e incentivo.
Comecei a ler por minha mãe e irmão. Havia uma estante de livros em casa e eu achava tudo tão misterioso. Como dentro de um livro poderia haver tantas personagens e histórias e imagens e aprendizado? A descoberta foi surpreendente!
Há um crescimento desde 2007 no número de leitores no país e fico muito otimista com isso.
Há várias livrarias virtuais com frete gratuito inclusive, gosto de comprar na livraria Travessa: www.travessa.com.br


Leiam e comentem #recomendo o exercício!



É possível ensinar um filho a gostar de ler?

Dr. Luiz Celso Castro de Toledo

Psicólogo, mestre e doutor pelo Departamento de Psicologia Social da Universidade de São Paulo
Especialista em psicoterapia, orientação profissional (ambos pela USP) e terapia familiar (Instituto Familiae)

Recentemente conversei com um pai (podemos chamá-lo de Antônio) que me questionou sobre como ele poderia ajudar a filha a criar o hábito e, mais importante, o gosto por livros. A preocupação é pertinente. Se uma pessoa se habitua a ler precocemente, é muito provável que esse interesse permaneça ou cresça com o passar dos anos. A questão é: como uma pessoa que lê por obrigação se torna alguém que lê por prazer?
A carência de leitores no Brasil é preocupante e não me refiro apenas a crianças e adolescentes. Uma pesquisa extensa chamada “Retratos da leitura no Brasil”¹ nos forneceu algumas informações a esse respeito. Realizada pelo Ibope Inteligência no fim de 2007 em mais de 300 municípios, a pesquisa foi divulgada no ano passado pelo Instituto Pró-Livro. Ela indicava, entre outras coisas, que 45% dos brasileiros não têm o costume de ler. Assistir à televisão, ouvir música e descansar, entre outras opções, foram citados como hábitos muito mais frequentes do que o da leitura. Uma das responsáveis pela pesquisa chegou a afirmar que, mais do que a dificuldade de acesso, o preço dos livros ou a falta de tempo, o principal fator a ser considerado para explicar os baixos índices de leitura no país seria, pura e simplesmente, o desinteresse. Triste, não? Ainda assim me surpreendi, confesso que imaginava que a porcentagem de brasileiros sem hábito de leitura seria maior do que 45%. A explicação para isso, fui entender depois, está no fato de os pesquisadores terem incluído as leituras realizadas nas escolas nos cálculos do trabalho. Os índices são bem diferentes (e muito mais alarmantes) quando excluímos as leituras escolares obrigatórias. A quantidade média de livros lidos anualmente por nós, brasileiros, de forma espontânea, por prazer ou, simplesmente, por curiosidade, é baixíssima, pouco mais de um livro por ano.
Uma das conclusões mais interessantes dos pesquisadores foi a de que as mães costumam ter um papel mais importante nesse assunto do que os professores. Questionados sobre quem seriam as pessoas mais influentes na criação de seu hábito de leitura, 49% dos pesquisados apontaram suas mães e 33% indicaram seus professores. O Antônio tinha boas razões, portanto, quando decidiu me perguntar sobre como poderia ajudar a filha a aprender a gostar de ler. Esse não é um gosto que se adquire apenas frequentando a escola — a família exerce uma enorme influência (positiva ou negativa) no surgimento de novos leitores. Jovens e crianças que gostam de livros, geralmente, têm pais que também são leitores, que os incentivam, possuem livros e revistas em casa e que conversam sobre o que leram. Ou seja, são filhos de famílias que dão valor à leitura, fazendo dela parte de seu cotidiano. É desse modo (facilitando o acesso, conversando a respeito e cultivando o nosso gosto pela leitura) que estimulamos a paixão de nossos filhos por livros. Afinal, não é assim que fazemos com outros temas, como futebol ou novelas? E para os que duvidam que as crianças e jovens contemporâneos possam se tornar leitores entusiasmados, recomendo que se recordem das notícias veiculadas pela grande imprensa a respeito dos lançamentos recentes dos livros das séries “Harry Potter” e “Crepúsculo”. Esses e outros foram lançados com filas de jovens e crianças brasileiras em portas de livrarias.
“Mas esses não são os livros que eu gostaria que minha filha lesse” — retrucou o Antônio. Entendo, mas não podemos esperar que ela se apaixone por livros clássicos antes de ler muitas revistas em quadrinhos e best-sellers para crianças. Primeiramente adquirimos o gosto por algo, como a música, depois aprendemos a diferenciar o que é descartável do que é arte.
Existem muitas maneiras de ajudar a transformar a leitura de nossos filhos em um hábito prazeroso. E nós, pais, somos os principais responsáveis por essa tarefa. Boa sorte, Antônio!

¹ A íntegra dessa pesquisa encontra-se no endereço: www.prolivro.org.br

No site: http://www.sejaetico.com.br/entre_pais_e_filhos.php há matérias muito interessantes. #BoaLeitura.